quarta-feira, 14 de julho de 2010

Minas de Inhangüera

Algumas informações acerca das Minas de Inhangüera, Morro do Taió,  Morro do Funil e Morro Bituruna. Mapa, textos e demais detalhes consultados no livro:


EHLKE, Cyro. A Conquista do Planalto Catarinense (1ª. Fase): Bandeirantes e Tropeiros do Sertão de Curitiba. Rio de Janeiro: Laudes, 1973, 193p. 






Zacarias Dias Cortês e as "Minas de Inhangüera"


A ocorrência das bandeiras paulistas de Curitiba, no planalto barriga-verde, durante os primeiros decênios do século dezoito, se deveu aos propósitos da Corte Portuguesa de mandar abrir um caminho para a condução e o comércio de gado  das campanhas do Rio Grande do Sul e da Colônia do Sacramento, para a então “Vila de Coritiba”, e,  desta para o comércio das minas de ouro de Cuiabá, Minhas Gerais e Goiás.




(...)
Embora fosse o serviço contratado pelo governador de São Paulo com Manuel Godinho, não pode este levá-lo a cabo e até por volta de 1722, nada, ainda, de concreto se fizera, o que induziu o Rei de Portugal a reiterar o pedido, por Carta Régia de 18 de abril de 1722.(1) Volta-se, então, o governador para Luís Pedroso de Barros, contratando com este, em 2 de maio de 1724, a feitura da estrada. O empreendimento, porém, continua a sofrer delongas e percalços , até que D. Rodrigo Cézar novamente contratasse, e desta vez fê-lo com o Sargento-mor de Cavalaria, Francisco de Souza Faria, ao qual, em 1727, determinou que abrisse “um caminho de terra da Capitania de São Paulo aos campos de Curitiba, por onde possam passar gados e cavalgaduras...”. (2).
Realizaram-no, finalmente, o dito Souza Faria, vindo das bandas de Laguna, e Manoel Rodrigues da Motta, com milicianos curitibanos, entre 1728 e 1730. Rodrigues da Motta vinha de Curitiba para o Sul, trazendo instruções para seguir o rumo de sudoeste, “carregando sempre para o mar”(2). As picadas, contudo, nunca se encontrariam, e a de Souza Faria é que haveria de prevalecer.
Pelo caminho aberto, passou em 1731, conduzindo as primeiras 800 cabeças de gado, Cristovão Pereira de Abreu, tropeiro e estancieiro no sul, o qual deixou transitável a picada então aberta, estabelecendo, assim, a ligação de Curitiba ao sul de Santa Catarina e campanhas rio-grandenses.
Valeu aos empreiteiros do caminho, não obstante, o roteiro elaborado pelo bandeirante curitibano Zacarias Dias Cortes, que em 1723 se fez em expedição da Vila de Curitiba pra os sertões do Sul, atravessando, nessa ocasião, grande parte das terras do futuro litígio entre os estados do Paraná e Santa Catarina.



Destinava-se Zacarias Dias Cortes, segundo lembra Francisco Negrão (3), aos “Campos da Vacaria”, no Rio Grande do Sul, de onde pretendia trazer gado vacum e muar. Embora não tenha consumado o propósito e a empreitada, contribuiu, contudo, para o melhor conhecimento da região, infiltrando-se pelas cercanias do planalto e adjacências do litoral catarinense, onde descobriu e explorou as “Minas de Inhanguera”, descobrindo e explorando, igualmente, o morro ou serra Negra, “pela língua da terra BITURUNA”, o qual referido morro ia “afocinhar sobre o rio Uruguai”.


O descobrimento de ouro, realizado por Zacarias Dias Cortes, despertou grande interesse ao governador de São Paulo,  que, estranhando o silêncio que se guardara sobre tão importante assunto, apressou-se a escrever à Câmara de Curitiba, por ofício datado de 17 de dezembro de 1724, pedindo esclarecimentos e a elaboração de planta e roteiro descritivos da zona percorrida, o que foi feito por Zacarias Dias Cortes. O mapa por ele elaborado é o mesmo ao qual  faz referência  o historiador Adolfo Varnhagen, Visconde de Porto Seguro, em  sua “História do Brasil” e, ao que se afirma, teria  existido até a primeira metade do século dezenove, no arquivo da Secretaria do Governo de São Paulo, de onde desapareceu. O roteiro, contudo, foi conservado, e vem  difundindo na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.(5).


É sobremodo vago, como soem ser os documentos  desta natureza, comenta Taunay(6).
“Recomendava o rumo de sudoeste”. Balizava-o o Bituruna, montanha que afocinhava sobre o rio Uruguai”.
“Caminhando para leste, ninguém poderia errar a posição do morro Taió, em cujo sopé se podia buscar ouro”. “Ali estavam as minas de “Inhanguera”, tão afamadas. Existem no sertão da Enseada das Garoupas e Ilha de Santa Catarina”.(6-a)

“Inhanguera” do tupi, significando “Rio que foi (ou pertenceu) ao demônio;  De I, água, rio: anhang, fantasma, demônio; guera, que foi ou pertenceu;. (vide: Theodoro Sampaio, “O Tupi na Geografia Nacional”; idem: “Vozes Indígenas na Toponimia do Paraná”, em Boletim nºII, ano V, do Inst. Hist.. e Geogr. Paranaense, ano de 1940, por Romario Martins.
(1)Boletim do Arquivo Municipal de Curitiba, vol. IX, ref. Aos anos de 1721 a 1733, págs. 53 e 54.
(2) Revista do Arquivo do Est. De São Paulo, “Documentos Interessantes”, vol. 18
(3) Francisco Negrão, Genealogia Paranaense”, Curitiba, ano de 1929, vol. IV, págs. 214/217.
(5) Ver. Do Inst. Hist. E Geogr. Brasil, vol. 69, págs. 241 a 243.
(6) Afonso de E. Taunay

O Itaió lendário
Tiveram significativa importância, e serviram para fundamentar outras explorações ou adentramentos nos sertões catarinenses do planalto – e dele contíguos -, as lendas que se fizeram notórias, com respeito às fabulosas riquezas em ouro e em prata, que era fama, “por tradições antigas”, existirem no famoso Itaió ou Taió(1), e em suas cercanias.

É fato comentado, contudo, que, das “Minas de Inhanguera” exploradas por Zacarias dias Cortes, retirara esse bandeirante e minerador curitibano, 1.000 oitavas de ouro. E o seu roteiro de 1723 insinuava, por outro lado, o “Taió”, que era o que se devia buscar, como bastante rico daquele mineral, o mesmo acontecendo como os Itajaís em suas nascentes.
Ainda no Itaió, - ou das lavras referidas -, segundo propalado, igualmente os missionários jesuítas, pela parte das Missões, teriam sacado ouro e prata.

Essas mesmas apregoadas riquezas , embora nunca depois comprovadas, despertaram a avidez e a cobiça dos mineradores, sertanistas e aventureiros, que sequiosos de cabedais auríferos, procuraram, em diferentes épocas, localizar o Itaió e minerá-lo. Muitas, todavia, seriam as decepções, as penúrias e os fracassos.

A Serra “Bituruna” ou “Ibituruna”
O morro ou serra Bituruna, - também referido -, que dele não poderia estar muito distante; pelo menos é o que se depreende da leitura do roteiro de Zacarias Dias Cortês e sequência da narrativa. Dito roteiro, com efeito, marcou a presença desse bandeirante, ao centro-sul do planalto catarinense, com alguma deriva a sudoeste. Daí porque somos dos que estão absolutamente convencidos de que Zacarias Dias Cortes jamais terá atravessado os campos de Palmas, no Paraná.

Ainda o Itaió
No que continua a concernir a este, impõe-se referir a ocorrência de um interregno de anos, nos relatos oficiais à sua existência e exploração, até 1766, pelo menos. Daí para depois, voltaria ele a ser mencionado em 1787, 1791 e 1820.
É certo, porém, que já se encontrava em trânsito a “Estrada da Mata”, e isso faz lícito admitir que a lenda se faria continuadamente transmitida entre os tropeiros que, vindos do sul, a palmilhavam, ensejando supor, igualmente, o fato de alguns deles, em grupo, tenham tentado, outrossim, descobri-lo e socavá-lo. Oficialmente, contudo, voltou o Itaió a ser referido apenas a 6 de março de 1776, em carta que o capitão povoador de Lages, Correia Pinto, dirigiu ao governador de  Santa Catarina, então Pedro da Gama e Freitas, e por este, à Corte Portuguesa, através de carta ao Vice-Rei no Brasil, Marquês do Lavradio(2).

O encaminhamento, ao Rei de Portugal, do projeto de abertura do caminho da parte da Ilha de Santa Catarina para a Vila de Lages e vice-versa, fez-se seguido de necessária autorização, (...). Ofereceu-se então, para tal mister, o alferes da Cavalaria Auxiliar, Antonio José da Costa(3) (...). Em seus relatórios, contando as peripécias, dificuldades e descobrimentos, inclusive relatando haver encontrado sinais de deserções por aquelas paragens, ressaltou, em tópico que:
pelo que respeita aos descobrimentos de ouro no referido País, fui informado de que muitas pessoas da Capitania de S. Paulo e Minas, o tem intentados; mas ignoro o fructo que tirarão das suas diligências até agora, por onde venho a concluir que só o tempo he que poderá verificar se he ou não certa a opinião vulgar, de que ha ouro naquellas Certoenz, e se ahi existe realmente o denominado Tayó, com as riquezas que o vulgo lhe acumulou.

Diz Miguel Gonçalves dos Santos, em sua carta, que, das informações por ele obtidas junto ao então Capitão-mor da Vila de Lages, Bento Amaral Gorgel Annes, e das explorações que, em dezembro de 1791, fez,  indo por estrada já em trânsito, daquela Armação para a Vila de Lajes, foi igualmente até os limites de Vacaria, que ficava ao sul trinta léguas, tendo tido ali bastante comunicação com alguns fazendeiros, bem como com o capitão Antônio Marques Arzão, de quem já era conhecido por ocasião  da abertura da estrada. Prossegue relatando que “este Arzão”, por amizade comunicou ao Suplicante, que, naqueles Certões havia hum Monte, aonde foram por acaso pernoitar, que decerto seria o grande Tayó, que dizião ter os jesuítas sacado bastante prata pela parte das Missões; por que fazendo fogo de noite para a sua comida cozida, e servindo-se de tres pedras para formar huma trempe a sua marmita tendo chovido naquela noite, vira que de manhã  as pedras estavam brancas pelas faces de dentro, e que levando as que pode ao seo Capitão-mor, este o remetera com ellas à Vila de Laguna, donde fora logo enviado ao Governador de Santa Catarina, que então era o Brigadeiro Francisco de Barros Moraes Araújo Teixeira Homem, o qual mandando fundir huma das ditas pedras pelo Juiz do Offício de Prata, Luiz Correa, este viera dizer que era prata finíssima, pelo que lhe mandou o Governador dar quartel e 400 rs, para prato enquanto não voltasse  solução de Sua Mage., a quem  dava parte pelo Vice-Rey do Estado, que então era o Exmo. Sr. Luiz de Vasconcellos e Soiza, e que tendo a solução  demora, e aquelle a sua família de cuidar, se retirava com licença do mesmo governador  com a obrigação de voltar sempre que fosse chamado; o que  ainda não tinha acontecido”.
“pelos anos de 1866 a 1867, dirigiu-se ao Itaió uma expedição particular, com ferramentas próprias ao reconhecimento das minas, tendo voltado, logo em seguida, abandonando os instrumentos de trabalho na base da montanha, onde, ainda hoje, (referia-se ao ano de 1883), devem estar, se não foram inutilizados, pelos índios que habitavam naquelas sertões”.  
      
Tive,- prossegue – “em épocas diferentes, dois homens ao serviço da comissão a meu cargo, os quais haviam feito parte da expedição e asseguraram-me existir no cume da montanha, um pequeno planalto, onde viram, fincando a prumo como se fora o lenho vertical de uma cruz, um madeiro de lei falquejado e de tal forma alinhadas, que davam a coligir haverem sido intencionalmente plantadas”.

(1) Itaió, Taió ou Taijó; vide indicação topomínia indígena, em nota anterior; significaria: “casa de pedra” ou “pedra grande”.
(2) M. I. Coelho Rodrigues: “Questão de Limites”, edição da Tip. e Lit. Olympio de Campos & Cº.., Rio de Janeiro, 1906, págs 220 e 227.
(3) O Capitão Antonio Jose da Costa, era natural do Desterro, filho de Tomaz Francisco da Costa e Mariana jacinta da Vitória. Casado com Pascoa Maria, em 1793. (cfe. “Raízes Seculares de Santa Catarina”, por Oswaldo Rodrigues Cabral, pág. 93)
EHLKE, Cyro. A Conquista do Planalto Catarinense (1ª. Fase): Bandeirantes e Tropeiros do Sertão de Curitiba. Rio de Janeiro: Laudes, 1973, 193p. 


Morro do Funil (Taió/SC - 1.062m) Foto: JK 

Morro do Taió (Taió/SC) Foto: Isi Hennka (Google Earth)





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9 comentários:

Anônimo disse...

Quando o articulista (ou historiador) indica "vila de Curitiba", na verdade não é bem na vila que as tropas passavam, passavam pela Lapa e Palmeira que, pertenciam a jurisdição de Curitiba.
Há que se ter este cuidado na informação.

Anônimo disse...

ola..o mapa das minas de anhanguerra nao esta muito visivel tem como melhora-lo

Anônimo disse...

digo inhanguerra

paulo marcelo adamek disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

https://www.youtube.com/watch?v=5dCsLW9WMt4

Geraldo disse...

Há confusão com dois Morros I-Taió, o verdadeiro em Mirim Doce (não Taió),sendo ele também limites de outros municipios, com o "novo" ao N, I-Taió em Santa Terezinha, outrora parte do município de Itaiópolis (as duas fotografias, são portanto elevações distintas e as altitudes, fora da realidade).

paulo marcelo adamek disse...

sim Geraldo,é por isso que o verdadeiro morro do taio ou o morro do taio das minas nunca foi encontrado,pois deve ser o "moro do ITAJAI" algum morro próximo ao rio Itajai...este que conhecemos é o morro do monge joão maria que dizia ser o morro do taio o próprio paraizo...

paulo marcelo adamek disse...

também em relação ao "MORRO OU SERRA NEGRA" coincidentemente se olharmos do morro alto paraguaçu em Itaiópolis SC, dependendo do dia vemos um morro ou uma pequena serra que esta sempre encoberto por uma especie de neblina "fumaça" tornando-se sempre negro ao contrario do morro do taio sempre bem visível, o estranho é que somente é possível ver este morro negro apenas daquele local, já na região da Moema vemos dois morro "gêmeos" o morro do Taio e um outro morro "o qual não sei o nome"...

Anônimo disse...

ainda acho que "el paititi esta em SC"